Perfil
Sou um rebelde controlado
| Sou um rebelde controlado |
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| Escrito por Cátia Figueiredo | |
| 24-Jun-2009 | |
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Homem com uma mente aberta, habitante de um mundo sem fronteiras, aventureiro, rebelde e crítico, Jorge Santos não se limita a ver a vida passar por ele. O dia em que, em 1976, ao chegar do Porto à estação de Coimbra um polícia o levou para cortar o cabelo é apenas um dos muitos episódios característicos desta vida ativa. Eram os tempos dos Beatles, em que ter uma banda se apresentava como aliciante e, a um baterista, impunha-se um longo cabelo. Se até aos 17/18 anos não tinha grande intervenção política, o despertar de uma veia mais contestatária quase que o levou mesmo a incompatibilizar-se com o próprio pai, defensor acérrimo de então. Na luta contra uma “sociedade cinzentona”, foi adepto da cultura hippie. “Acho que toda a gente era na altura”, recorda rindo. “O movimento hippie foi uma revolta social. Quanto mais não fosse, pelo gozo de contestar, e o maio de 68 foi o culminar disso. Só tive pena de não ir a Woodstock, mas vi depois o filme”, solta entre uma gargalhada. Vivendo em Coimbra, os protestos estudantis não lhe foram indiferentes. O mesmo se pode dizer do maio de 68, que o apanhou em Paris a estudar. Olhando para trás assume a rebeldia que considera própria da época e da geração. “Acho que ainda hoje sou nalgumas coisas, mas um rebelde um bocado controlado.” “A capacidade de trabalho dos jovens com deficiência mental é igual” “Aos 25 anos já tinha uma vida riquinha. Já tinha uma guerra, duas revoluções, o maio de 68 e o 25 de abril, o Coimbra 69 também, e já tinha vivido dois anos numa comunidade Muçulmana. Aos 25 anos já tinha vivido o que muita gente se calhar não viveu na vida inteira”, conta Jorge santos. Se era rica aos 25 anos, aos 59 este professor do ensino especial sugou já da vida muitas realizações pessoais e profissionais. Em comum nas atividades em que se envolveu, esteve sempre o trabalho em prol da comunidade. A vida profissional é passada na educação e integração de crianças com necessidades educativas especiais, por opção do próprio. “Acho que custa um bocado no primeiro mês ou dois e depois é mais atraente até do que trabalhar com crianças ditas normais. Aliás, a partir de certa altura acho que já não era capaz.” Ao longo de oito anos, ajudou no arranque da ARCIL – Associação para a Recuperação de Cidadãos Inadaptados da Lousã. Chegou no segundo ano de vida da instituição e só abandonou a casa no 12.º. “Foram oito anos engraçados”, em que fez parte da direção e foi coordenador pedagógico. “A trabalhar sobretudo com uma população deficiente mental aprendi um bocado a reconhecê-los como pessoa válidas, muito válidas, produtivas e dignas de respeito”, confessa o professor. Ainda hoje é motivo de alegria para Jorge Santos reencontrar os utentes da instituição e vê-los a trabalhar, a ganhar um salário e a viver na sua própria casa. “A capacidade de trabalho dos jovens com deficiência mental é igual à de qualquer outro indivíduo”, garante, “mas com uma vantagem, é que fazem aquilo por gosto. Como é uma coisa que fazem bem, fazem com muito gosto.” Trabalho dedicado à inclusão A carreira de docente soma cerca de 30 anos. A marca torna-se ainda mais generosa quando sabemos que 27 deles foram passados no ensino especial. Pelo caminho foi convidado para a direção geral do básico do Ministério da Educação, para a divisão de ensino especial de Coimbra. O trabalho revelou-se como um desafio “engraçado”. A missão abraçada era a de coordenar as equipas de professores na integração das crianças com deficiência no ensino regular. “A deficiência mental tem uma carga muito dura às vezes. Quando eles são colegas desde a creche, ou desde o pré-escolar, essa carga negativa desaparece”, assegura. “Da comunidade eles fazem parte, logo, não há razão nenhuma para eles estarem separados.” A carreira foi terminada já em Cantanhede, a coordenar as equipas de professores dos concelhos de Cantanhede e Mira. Como ensinar esse tipo de crianças e o que é que elas têm que aprender são questões com que ainda hoje, já reformado, continua a estar ligado. “Eles têm que aprender coisas práticas da vida. Não vão ser engenheiros, não vão ser arquitetos, muitos nem sequer conseguem ser carpinteiros, porque para ser carpinteiro é preciso medir as tábuas… Terão sempre profissões ‘secundárias’, mas vão ser treinados para as realizar.” O trabalho de inclusão é agora desenvolvido nas aulas a professores, no Instituto Piaget, em Vila Nova de Gaia. A mesma inclusão é defendida pelos Cidadãos do Mundo, uma organização não governamental com que trabalhou há alguns anos, com quem retomou o trabalho, depois de reformado. “Como nas dependências, nunca podemos dizer que ninguém está curado” É por indicação da direção regional de educação que Jorge Santos se torna representante do Ministério da Educação na Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) de Cantanhede. Quase dez anos volvidos, continua ligado a esta comissão, agora indicado pela Assembleia Municipal de Cantanhede. O trabalho, garante, é “completamente diferente” daquele que sempre desenvolveu com as crianças deficientes, embora não vão faltando alguns pontos em comum. A luta pela inclusão é disso exemplo. “É um trabalho de rede e mais melindroso, até porque é normalmente confidencial”, confessa o secretário da CPCJ. Ainda que seja um “trabalho atraente”, acaba também por se revelar “desgastante.” As cerca de 200 crianças hoje sinalizadas pela Comissão de Cantanhede não podem estar a ser observadas de forma constante, pelo que a situação se torna ainda mais sensível. “Nós na CPCJ trabalhamos no arame”, assegura mesmo. “Não podemos tirar 200 de casa. Se essas 200 estão em perigo, pode-lhes acontecer alguma coisa. Felizmente na maior parte das vezes não acontece, mas pode ser que aconteça.” Um processo fechado, não significa uma família livre de problemas a partir desse momento. São frequentes os casos em que, após a intervenção, os processos são reabertos passados poucos anos. Jorge Santos explica ainda que “como nas dependências, nunca podemos dizer que ninguém está curado.” Fotografia é paixão antiga Ver Jorge Santos na rua munido da sua inseparável máquina fotográfica é algo vulgar. A paixão é “antiga” e vem dos tempos de infância, talvez inspirada pelo pai. Nos tempos da Guerra Colonial começa mais a sério aquela que é hoje a incontável coleção de registos fotográficos. A Guerra, ainda que “dura”, é hoje recordada como um “episódio secundário” da passagem de dois anos pela Guiné-Bissau, abafada por outras figuras. “Como eu não tenho muito jeito para a guerra, nem para ser militar, acabei por viver mais com a população.” Esteve colocado numa companhia africana muçulmana, onde trabalhou como enfermeiro. A cultura era totalmente nova, tal como os hábitos, as tradições e os valores. A mutilação genital das mulheres, ou a circuncisão aos rapazes com uma catana são alguns dos costumes com que teve de aprender a lidar O convívio com a população é a parte que guarda com mais carinho. Recorda os 57 partos que fez na Guiné, as refeições conjuntas, entre muitos outros episódios sinónimos de uma integração efetiva na comunidade. A necessidade de fotografar dura ainda. As fotografias de rua são a experiência que assume agora como favorita, ainda que goste de “fotografar tudo.” O resultado dos milhares de flashes disparados até hoje permanece no anonimato, mas a ideia de vir a expor não está posta de parte. “Sou pouco paciente com algumas coisas e para estar a preparar uma exposição de fotografia tenho de tirar algum tempo e tempo não tem sobrado muito ainda. Pensei que quando me aposentasse ia ter tempo para tudo, se calhar acabei por ter ainda mais tempo ocupado. Tenho alguns projetos de fotografia, mas vão exigir alguma paciência, algum tempo e alguma vontade”, adianta. A Internet é neste momento o único canal através do qual vai divulgando algum trabalho, em blogs ligados à fotografia. É por aqui que trava contacto com fotógrafos brasileiros, belgas e holandeses. Mais do que trocarem experiências, criaram amizades e é até hábito visitarem-se uns aos outros. “Falar de (com) Educação” é outra página na Internet inseparável de Jorge Santos. Há vários anos que publica aqui diversos artigos sempre em torno da temática da educação. O mesmo gosto pela escrita faz com que seja coautor de livros técnicos sobre currículos funcionais para crianças com deficiência. |
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