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Independente de Cantanhede

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Artesanato muda de feições Imprimir e-mail
Escrito por Regina Bilro   
13-Ago-2007
ImageNão é de hoje a ideia de que o artesanato deixou de poder ser classificado como trabalho manual característico de uma região. Há muito que as peças artesanais deixaram de ser produzidas segundo técnicas e modelos tradicionais, ganhando dimensões artísticas que evidenciam o génio do próprio autor. Nas feiras de artesanato que se realizam pontualmente por todo o país (Cantanhede não é excepção), convivem lado a lado trabalhos realizados segundo o modo tradicional com outros ostentadores de um estilo mais moderno, irreverente não raras vezes. A este é dado o nome de artesanato moderno, urbano ou criativo, num movimento que já se instalou na nossa região.

A delicadeza das flores recortadas em feltro e decoradas com pequenos botões e pontos de costura chamam a atenção de quem observa os artigos expostos nas bancas dos comerciantes ambulantes instalados à entrada da Praia Fluvial dos Olhos da Fervença.

Mesmo sendo pequenas (não chegam ao tamanho da palma de uma mão) e em número reduzido, as suas cores fortes sobressaem por entre as diversas peças decorativas pintadas à mão e ali apresentadas por Paula Maduro, 22 anos, da localidade das Nogueiras.

Estudante de Design na ARCA, em Coimbra, a artesã aproveita a tarde de domingo para comercializar alguns dos trabalhos que realiza, sobretudo pinturas em cerâmica e em tela, mas também trabalhos de reciclarem e em feltro.

Não serão estes últimos os seus preferidos, mas são seguramente os que melhor consegue vender.

“Estive ontem na ‘Feira Sem Regras’, em Coimbra, e o que aqui tenho é o que me sobrou de lá”, explica ao Independente.

Para além dos alfinetes de peito em forma de florinhas coloridas apresentados na sua banca, a artesã decora também ganchinhos para o cabelo com o mesmo material, faz porta-chaves, bolsinhas para óculos e tudo o mais que a sua imaginação ditar ou em resposta às solicitações que possa receber.

Artesanato de autor

A telenovela “Floribella” influenciou os gostos dos mais novos e é especialmente para eles que a artesã produz estes artigos. Mas também há adultos (mulheres) que apreciam este tipo de adornos, nomeadamente os alfinetes de peito e os ganchos de cabelo, usados para complementar a “toilette”, conferindo um estilo mais peculiar.

Já teve até quem comprasse uma série de alfinetes para decorar cortinas. Uma estilista do Porto levou outros tantos para utilizar numa das suas colecções.

Paula Maduro integra uma geração de artesãos que está a surgir um pouco por toda a parte e cujos trabalhos diferem bastante do conhecido como artesanato tradicional. Se este pode ser definido como trabalho manual característico de determinada região, Paula, como tantos outros artesãos, aposta naquilo que pode ser classificado como “artesanato moderno”, “urbano”, ou “criativo”.

Apesar de não ser fácil determinar exactamente onde passa a barreira que separa o artesanato tradicional do moderno, uma classificação possível pode ser a de que este novo estilo de artesanato se define como uma arte manual com um traço de modernidade e um carácter mais urbano do que o artesanato tradicional.

Venda pela Internet

Uma simples pesquisa pela Internet permite aceder a inúmeras páginas referentes a este tipo de artesanato. Nestas páginas pessoais, em jeito de diário, os artesãos vão apresentando a evolução do seu trabalho que pode passar por artigos de decoração, bijuteria, malas, brinquedos, entre outros artigos, realizados em diversos materiais. Em comum têm a aposta em novos conceitos criativos, explorando a diferença, a originalidade e a inovação.

Há mesmo quem considere que os blogues (páginas da Internet em forma de diário) são o principal instrumento de visibilidade deste tipo de artesanato, embora seja comum a participação destes artistas nas feiras de artesanato que se realizam um pouco por todo o país. Em algumas cidades há mesmo feiras dedicadas exclusivamente ao artesanato urbano.

Embora o seu nome e os seus trabalhos já figurem num sítio da Internet dedicado ao artesanato urbano, Paula Maduro ainda não criou um espaço só seu onde possa apresentar mais pormenorizadamente as suas peças. Aliás, perspectiva criá-lo em breve.

“Tenho um colega que faz bijuteria e que tem um blogue que me disse que tem vendido muito através da Internet”, afirma, explicando a sua intenção.

Reutilização de materiais

Para além dos pequenos objectos em feltro, a jovem artesã aposta igualmente na utilização de diversos materiais, considerados lixo, para a realização dos mais diversos artigos.

“Eu pego no que as pessoas acham que é lixo e uso-o nos meus trabalhos”.

Sacos de plástico, molas partidas, roupa velha, nomeadamente lingerie, e muitos outros objectos já viram assim a sua vida prolongada, em novas utilizações, segundo a imaginação e a criatividade da artesã. A principal é, sem dúvida, a composição de quadros, sobre os quais recebe, depois, os mais variados comentários.

“Uma vez um senhor chegou ao pé de mim e perguntou-me se as cuecas que estavam num quadro eram usadas. Eu respondi que sim, obviamente que sim. Então se era um trabalho de reciclagem...”, recorda, rindo.

A ideia da reutilização de materiais não é nova. Já uma sua colega, também do concelho de Cantanhede, aproveita os desperdícios para a confecção de diversas peças. As malas são, talvez, os artigos com maior aceitação. Verónica Rebola, de 21 anos, do Zambujal, fabrica-as manualmente, seguindo um estilo muito próprio, facilmente reconhecido como peça de autor.
Actualizado em ( 13-Ago-2007 )
 
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