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Primeira Página seta A minha primeira vez seta Glória Laranjeiro - Se tratarem bem as minhas "bruxinhas", estão a tratar-me bem a mim
Glória Laranjeiro - Se tratarem bem as minhas "bruxinhas", estão a tratar-me bem a mim Imprimir e-mail
Escrito por Cátia Figueiredo   
28-Abr-2010

Durante o tempo que dura a conversa, Glória Laranjeiro não larga nunca a mais recente “bruxinha” que está prestes a terminar. É apenas uma entre as cerca de 500 que já viu nascer das suas mãos. Saem sempre diferentes, seja pelos tecidos, no tamanho, ou nos acessórios, mas a alegria que lhe proporcionam aqueles momentos de criação, essa é sempre uma constante.

Em dias que esteja bem-disposta é capaz de fazer duas, uma de manhã e outra de tarde. São as suas “bruxinhas”, que começou a fazer ainda enquanto pequena para matar alguns tempos deixados livres pela vida no campo.

Uma vida difícil e seis filhos para criar afastaram-na durante algum tempo deste gosto, que há cerca de dois anos recuperou. Voltou a fazê-las na altura em que frequentou uma instituição em Mira. Foi lá que ofereceu grande parte das suas bruxinhas para ajudar a angariar fundos.

Há cerca de dois meses que esta mulher de 70 anos, natural da Barra de Mira, chegou ao Centro Social e Paroquial de Cadima. A estada é ainda curta, mas a coleção de bonecas aqui criadas já ganhou lugar de destaque na instituição

De onde vêm estas “bruxinhas”?

O meu pai tinha muitos filhos e nós andávamos muito rotinhos. Das perneiras das calças todas rotas e das mangas das camisas todas rotas, eu ia de roda dos poços e a tocar o gado e ia fazendo-as. Desde aí que fiquei com aquela coisas das bonecas. Agora quando fui para o centro para a Praia de Mira, voltei a fazer. Elas até venderam lá pela festa da praia e venderam tudo. Achavam-nas engraçadas...

Teria que idade quando começou a fazer estas bonecas?

Tinha uns sete anos. Eu nem à escola fui...

E eram iguais às que faz agora, ou eram diferentes?

Era diferente, porque usava só farrapos velhos, da nossa roupa.

O que fazia a essas bonecas?

Guardava-as e brincava com elas aos domingos. Agora já me dão muitos retalhos. Gosto de estar entretida nisto, porque estou distraída da minha cabeça dos tormentos que passei.

Ainda tem guardadas lá em casa algumas das primeiras que começou a fazer quando ainda era pequena?

Não, isso não. Aquilo era tudo farrapos velhos.

Sempre fez desde pequena, ou houve algumas paragens pelo meio?

Quando me casei, deixei, porque tinha as terras e os filhos para criar.

Recomeça então quando esteve na Praia de Mira... Isto foi há quanto tempo?

Eu estive na Praia de Mira antes de vir para cá (Centro Social e Paroquial de Cadima). Estou aqui há quase dois meses e antes estive então na Praia de Mira durante dois anos.

Como é que se fazem estas bonecas?

Fazem-se bem. Dão-me tecidos e eu encho a cabeça de trapos e depois faço-lhes um chapéu ou um lenço. Umas têm chapéu de agora e outras têm o lenço, que é como usávamos antigamente.

Quanto tempo demora a fazer uma?

É conforme a cabeça. Se estiver mais ou menos, faço umas duas por dia. Eu não sabia nem fazer renda, nem casear e lá (Praia de Mira) queriam ensinar-me. Eu disse “não quero que vocês me ensinem. Estou a ver tanto com os olhos abertos como com os olhos fechados. Tenho que tirar da minha cabeça como casear.” O pouco que sei, foi tudo tirado da minha cabeça. Já se sabe que não é perfeito... Mas não as faço todos os dias. Às vezes também me distraio um pouco. Gosto de ir caminhar um bocado e assim...

O caseado aprendeu a fazer sozinha, mas e as bonecas?

As bonecas foi a mesma coisa. Fui para a praia, não conseguia estar lá a olhar para os outros, fui lá a um sítio e deram-me logo trapos, umas senhoras lá da praia que eram costureiras também me deram, a minha nora também me trouxe e foi assim que os arranjei...

As bonecas nunca são iguais...

Não. São todas mais ou menos diferentes. Gosto de fazer diferente os trajes, as cabeleiras, botar-lhe os lenços...

Tem ideia de quantas bonecas já terá feito até hoje?

Devo ter umas 500 feitas...

aquelas que fez na praia foram vendidas para angariar fundos?

Sim, para ajudar a instituição. Lá, só fiz uma noiva, que andei alguns seis dias para fazer, que ficou lá, mas disse “quando vier, quero aqui a minha noiva! A minha noiva nunca ma vendam, quero-a para mim.” Quando for para lá, quero vê-la.

Qual é o destino das outras?

As que faço aqui, entrego-as às senhoras daqui. Estão entregues a elas, que façam o que elas quiserem. Eu tenho duas netitas aqui, mas não querem bonecas, querem carros! As que faço, deixo, não quero levar nada para casa.

Também costuma oferecer a outras pessoas?
Sim. Também costumo oferecer a certas amigas. Uma pessoa que veja que me é fiel, que é minha amiga, costumo oferecer.

 Que materiais usa?

Os trapos, linha, lã, os trapos para encher a cabeça cortados aos bocadinhos com a tesoura. Para encher a cabeça tem de ser tecido branco, se não, ficava a cara manchada.

Entre tantas bonecas que já fez, qual foi a mais especial de todas?

A que gostei mais de fazer foi a minha noiva. Gosto delas todas, mas a minha noiva foi a que gostei mais.

Já houve alguém que quisesse aprender a fazer estas bonecas?

Pediu-me uma senhora aqui do centro. Mas ela sabe muito é fazer coisas de renda. Mas isso não sei eu.

Qual era o destino que gostava que estas bonecas todas que aqui fez tivessem?

Que as tratassem bem. Se as tratarem bem, estão a tratar-me bem a mim.

 
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