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Independente de Cantanhede

Primeira Página seta À conversa com... seta Paula Garcia - Falo com as cores
Paula Garcia - Falo com as cores Imprimir e-mail
Escrito por Cátia Figueiredo   
14-Jul-2010

É difícil contabilizar a quantidade exata de trabalhos que Paula Garcia, 36 anos, tem feito ao longo dos anos. É uma verdadeira artista, apaixonada por tudo que diga respeito às artes. Começou pelos arraiolos. Hoje dedica-se sobretudo ao ponto de cruz, meio ponto e ao desenho.

Algumas peças são da sua autoria. Outras são reproduções e outras ainda, podem ser inspiradas em desenhos de outras pessoas, mas adaptados por esta artista.

Natural de Moura (Beja), Paula Garcia vive em Cantanhede há cerca de 17 anos. Criança e mulher sempre ativa e positiva, recusou-se desde cedo a baixar os braços perante as adversidades. Não seguiu o sonho de ser arqueóloga, mas não permitiu que as dúvidas quanto às suas capacidades, por ter paralisia cerebral, a afastassem do mundo das artes.

Que tipo de trabalhos manuais faz?

A partir dos meus 11 anos, uma professora abriu uma escola para crianças começarem a fazer arraiolos. Tenho duas irmãs e a minha mãe pô-las nessa escola nas férias. Eu fiquei de fora, porque tenho paralisia cerebral e ela pensou que eu não era capaz de fazer nada. Eu gostava muito desse tipo de trabalhos, desde pequenina, e perguntei à minha mãe por que é que não podia ir. Ela disse que eu fazia as coisas com dificuldade e que, como ia gastar algum dinheiro com as minhas irmãs, que não podia. A partir desse dia, nunca me viram na rua como antigamente com a minha bonequinha. Então, a professora de arraiolos, que me conhecia muito bem, perguntou a uma das minhas irmãs por mim. A minha irmã, como as crianças falam a verdade, disse à professora que a minha mãe me tinha dito que eu não podia ir, porque era deficiente e não podia fazer bordados. A professora no outro dia foi a casa da minha mãe. Não sei o que é que falaram, mas passado um quarto de hora chamaram-me e a professora disse-me que a partir do dia seguinte ia para a escola dela. Naquela noite nem dormi, com aquela ansiedade. Qual foi a minha admiração quando a professora me meteu a um canto, fora das meninas, sentada numa cadeira com um saco para enrolar lã.

Não a levaram então para aprender a fazer arraiolos...

Exatamente. A professora, que era novinha, pensava que eu ficava contente. Diz-se que o Diabo fecha uma porta mas há sempre o Deus que abre uma janela. Então eu estava a enrolar a lã e, ao longe, uma colega minha metia-se toda torta para eu ver como se fazia e fui aprendendo. Entretanto o meu pai, que era Guarda de cavalaria, como os cavalos fazem bem às pessoas que têm paralisia, levava-me para lá. O meu pai estava a dar ração aos cavalos quando reparei na saca, que era de serapilheira e me lembrava a tela. Pedi ao meu pai para me cortar um bocado da saca e assim foi. Depois, naquele tempo, as vizinhas faziam todas tricô e malha e eu era a menina dos olhos daquelas pessoas. Eu já tinha a saca, faltava-me a agulha e a lã. Como via as senhoras sempre na rua de verão a fazer malha, na hora do fresco, perguntei às vizinhas se tinham restos de lã. Pedi que os deixassem à minha porta a dizer “para a Paula.” Era todos os dias um saco de lã à minha porta. A minha mãe perguntou-me para que queria eu tanta lã e disse-lhe que era para fazer pulseiras.

E ela acreditou?

Acreditou, porque havia muitas meninas a fazer naquela altura. Só que antes disso, eu era muito irrequieta, gritava, brincava, ria, pulava. E começaram a achar a Paula muito caladinha e muito encolhida.

Pegou então nesses materiais e começou a fazer arraiolos às escondidas…

Havia uma revista de ponto de cruz chamada “Para Ti” e estava lá a cara de um chinês. Eu tinha tantas lãs e, como a cara do chinês tinha tantas cores, eu fiz. Primeiro desenhei-o e depois fui contornando onde havia o risco. A partir daí fui enchendo. Entretanto a minha mãe começou a achar que eu estaria doente por estar tão parada, até que a minha irmã foi dar comigo a bordar. Ela ficou tão alegre que soltou um berro e a minha mãe ouviu. A minha mãe foi ver e ficou de boca aberta. Expliquei-lhe o que tinha acontecido e até hoje não parei.

E nessa altura, a sua mãe já a deixou voltar à escola para aprender?

Não, porque entretanto eu já não queria. Achei melhor trabalhar sozinha

Durante muito tempo, foi fazendo apenas arraiolos…

Sim e aí já era com os materiais a sério.

E quando é que passa dos arraiolos para outro tipo de trabalhos?

Há uns cinco anos passei para o ponto de cruz. Uma moça que estava na loja pegou num bocado de tela e mostrou-me. Não aprendi tudo, mas comprei revistas e fui aprendendo.

Neste momento os seus trabalhos são mais à base do ponto de cruz…

Sim, também por causa dos ossos. Nos arraiolos temos de puxar muito bem e custa imenso. E faço ainda meio ponto. Também fui aprendendo sozinha. Não é difícil, até é mais fácil do que o ponto de cruz.

Como é que aparece ainda a pintura aí pelo meio?

A pintura é também desde pequena. Andava na escola e era a melhor aluna a visual. Gostava de desenhar caras de pessoas. Hoje já pinto de tudo.

Em que é que se inspira para fazer estes trabalhos?

Adoro as cores, adoro escolhê-las. E falo com as cores.

Tem muitos pedidos?

Agora não, porque a crise está como está. Mas já tive.

Já ensinou alguém a fazer este tipo de trabalhos?

Não, mas gostava. Gostava de ensinar pessoas mais velhas. Mais novas não vale a pena, porque interessam-se por outras coisas que não as artes.

Entre os arraiolos, ponto de cruz, meio ponto e desenho, onde se sente mais feliz?

Não me pergunte isso. Eu adoro tudo o que seja bordados e arte.

Alguma vez voltou a encontrar a colega que nas aulas de arraiolos lhe mostrava como fazia?

Encontrei-a uma vez há uns quatro anos e ficou contente. Ficou mesmo orgulhosa.

 
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