| "O meu pai é um herói" |
| Escrito por Cátia Figueiredo | |
| 12-Mar-2008 | |
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Um homem que cria sozinho três crianças. É esta a história da família Ramalho. A doença levou a figura materna desta família. Foi então tempo do único homem da casa assumir as rédeas sozinho e educar as três filhas, hoje três mulheres. Em vésperas do Dia do Pai, o Independente de Cantanhede foi conhecer um super-pai, pelos olhos das filhas.
Ana Filipa (20 anos), Ana Rita (23 anos), Ana Margarida (24 anos) e José Ramalho (55 anos). Quem conhece este pai e as suas três filhas encontra uma família como tantas outras. O que distingue os Ramalho é a presença de um super-pai, como admitem a próprias filhas. Foi há cerca de onze anos atrás que o pai José Ramalho assumiu a tarefa de educar sozinho três crianças, depois da morte da mãe Ramalho. "A princípio uma pessoa olha para esta história e pensa: "Uma tragédia!", mas não", garante a filha mais nova. "Primeiro porque não é nada de outro mundo, há gente bem pior, e depois porque o meu pai desempenhou perfeitamente o papel." A falta da mãe obrigou a alguns ajustamentos na família. Se a filha mais velha assumiu – e continua a assumir – o papel de "galinha", já a do meio tornou-se na mais brincalhona e a mais nova é mesmo a mais reservada. Quanto ao pai, Ana Filipa garante ser unânime lá em casa que ele se tornou num super-pai. "Há tempos uma senhora dizia: 'É um grande homem!' e o meu pai respondeu: 'Não, eu só tenho 1 metro e 74!' Além disso tudo, ele ainda consegue ser humilde." Altura de abandonar progenitor Assumem-se hoje como meninas do papá. "E o papá também é das meninas", garante a filha mais nova. A infância, recorda a benjamim, foi um período feliz, onde não faltou carinho, cumplicidade e muita brincadeira. "Costumo dizer que a definição do meu pai é: o pai que se deita no chão para brincar com as filhas. Porque era, eu lembro-me de ele fazer isso comigo também." A falta da figura materna em casa acabou por não se revelar problemática. A situação acabou sim por estimular uma relação de grande confiança entre pai e filhas. "Houve uma vez que uma colega minha me perguntou: 'Como é que tu consegues comprar soutiens com o teu pai?' E eu pensei 'como é que eu haveria de não conseguir?' Para mim é super natural!, recorda Ana Rita rindo. "Como crescemos assim, nunca soubemos como era ser diferente." Hoje José Ramalho passa a semana sozinho na casa de Cantanhede, na companhia dos sete cães. A filha mais velha está a trabalhar em Inglaterra e as outras duas estudam em Coimbra. A missão mais dolorosa coube à filha mais nova, a última a sair de casa. "Eu antes de entrar para a Faculdade lembro-me de chorar à noite no Verão a pensar no meu pai sozinho", conta. "Eu costumava dizer que fui eu que fiquei com esse papel de abandonar o meu pai." O problema acabou por não se revelar problemático e a jovem garante mesmo ter desenvolvido uma relação mais próxima com o pai. O segredo da família para ultrapassar as dificuldades, revela a filha mais nova, é ir pensando nos obstáculos à medida que vão surgindo. "E depois logo se vê como se resolve." "Cenários de guerra" Uma pessoa actual, aberta, pouco conservadora, pacífico e discreto. É assim que o pai José Ramalho é descrito pela cria. Falar de namorados é o assunto ainda hoje mais difícil para o progenitor. De resto, é conhecido pelas suas "saídas muito elegantes, sem falar dos assuntos, mas falando" "É um herói", acrescenta ainda. "E quando digo herói não é teoricamente, é mesmo na verdadeira acepção da palavra", descreve Ana Filipa visivelmente orgulhosa. "O meu pai chegou a uma altura que fazia quatro coisas diferentes: dava aulas, colaborava com duas empresas e dava explicações." Porque até um super-pai também tem defeitos, José Ramalho é conhecido entre as filhas pelos seus "cenários de guerra". É assim que as jovens classificam em tom de brincadeira os momentos em que o pai se enerva. "O meu pai é um super pai, mas não é diferente. É igual aos outros. É é super." |